sábado, 20 de março de 2010

O herói de uma nação

"Para alguns jovens Ayrton pode não passar de um ex-piloto famoso, de um tricampeão, como Piquet e Lauda. Para os mais velhos, talvez, seja uma consequência do ótimo Emerson e do que o Brasil já havia construído no automobilismo. Para toda uma geração, que hoje tem cerca de 30 anos, este sujeito foi o ídolo maior de um país.

A morte mais dolorida de alguém que você sequer conheceu. O domingo mais triste da história de um país.

Aquele sujeito corajoso, ousado, com a postura de vencedor que contradiz o jeitão brasileiro de ser, deixava de erguer nossa bandeira aos domingos pro mundo todo aplaudir.

Era nosso orgulho, nosso filho mais querido.

Havia quem não gostasse, claro. Mas eram raros. Ainda são.

Ayrton ultrapassou o limite entre um ídolo do esporte e um ícone nacional. Era um exemplo ao brasileiro de que não eramos os “coitadinhos”, que nem sempre foi bem aproveitado.

Vencia na marra, perdia buscando seu limite. Errava, acertava, mas se bancava. O que prometia fazer, fazia. Não engolia qualquer ordem, não aceitava condições e foi buscar, através de talento e força de vontade um lugar de destaque dos mais dificeis já vistos na F-1.

Chegar lá e bater seu companheiro é pra muitos. Ganhar de um companheiro mais forte, pra poucos. Desbancar um campeão mundial como Alain Prost, ganhar a equipe e se tornar o principal piloto com ele do lado, não é pra qualquer um. E ele fez.

Talvez por ter existido Senna, cobrem tanto de Rubens e Massa. Talvez não. É óbvio que sim.

Jamais imaginariam do Ayrton uma atitude como a de deixar o companheiro passar na última curva e se fazer de vítima no pódio. Ele não faria. Ganharia a corrida, seria demitido, brigaria com o mundo… mas coitadinho, jamais,

É o anti-brasileiro, paixão do povo que adora ser coitado, e que nunca aceitou esta condição.

Ayrton faria, neste domingo, 50 anos.

Comentarista, dono de equipe, manager do Bruno, empresário, presidente da república, técnico do Corinthians, comentarista da Globo, vendeder de maça na feira, sei lá o que ele estaria fazendo. Mas, estaria fazendo com brilhantismo.

Jamais aceitou a condição de “mais um”, muito menos a de derrotado. Perdia inconformado, e ao invés de apenas lamentar, buscava reverter.

E revertia.

Parou o mundo com sua morte. Fez jovens e senhores, juntos, sentarem na calçada chorando a perda de um desconhecido aqui no Brasil. Seu caixão passou para todos aplaudirem. As empresas pararam, as pessoas sairam nas ruas e não teve um hipocrita pra dizer: “Onde já se viu? Pra que tudo isso?”. Hoje, pra qualquer outro, teria.

Para Senna, não teve. Pois nem o mais azedo dos sujeitos seria capaz de discutir a importância de alguém que consegue fazer o que ele fez neste país.

Foram dias de verdadeiro velório nacional. Quem não se lembra não imagina como era entrar num onibus segunda-feira de manhã e ver pessoas chorando, do nada, sem um motivo aparente.

Ver as pessoas, ricas ou pobres, na rua com uma bandeirinha nas mãos saudando a última passagem dele, que lentamente, incoerente a sua vida, passava por nós nas avenidas de São Paulo.

Ayrton foi o que jamais tivemos, o que jamais teremos novamente e um exemplo mal aproveitado.

Nos ensinou que não somos inferiores, e que podemos, desde que não aceitemos qualquer coisa. Ensinou, ensinou, ensinou, e poucos aprenderam.

Domingo Ayrton faria 50 anos. Talvez fosse uma data comum, não fosse Ímola 94. Uma lembrancinha no Esporte Espetacular e mais nada, pro aposentado tricampeão de F-1.

Mas, quis a vida que fosse assim. Talvez para que nos lembrassemos com mais força e saudades deste sujeito especial. Talvez porque ele era demais para o mundo em que vivemos.

Ele se foi, deixou mais do que precisava, mais do que devia, e uma gigantesca nação de “viúvas”.

Eternamente gratos pelos momentos mágicos de alegria e orgulho aos domingos de manhã, aquelas lágrimas de 1994 não secaram para muitos até hoje.

Sou um deles, admito.

Não terei outro ídolo com Ayrton, porque sua mistura de talento, personalidade, postura e carisma não permitem. E também porque não serei, nunca mais, um garotinho de 15 anos usando o boné da Nacional e idolatrando um cara que dirige um carro de corridas.

Quando resolvi ser jornalista, há muitos e muitos anos, um dos motivos era poder apertar sua mão. Amanhã, fatalmente, eu imaginaria estar lhe mandando um e-mail ou dando um telefonema para parabenizá-lo.

Mas não deu tempo. Sequer o conheci.

Não importa. Não precisei disso para saber quem era.

Parabéns, Ayrton. Onde estiver, provavelmente no lugar mais alto do pódio, espero que esteja feliz, bem e que receba todo carinho deste povo, que mais de 15 anos após sua partida, ainda lembra de você todos os dias com enorme saudades.

“O fato de ser brasileiro só me enche de orgulho”, disse Senna, numa entrevista.

E nós dizemos o mesmo, campeão.

abs,
RicaPerrone
http://www.ricaperrone.com.br/ "


Este texto foi retirado na íntegra do blog do Jornalista RicaPerrone, e reproduzido aqui com os devidos créditos, pois nenhuma outra frase ou palavra poderia traduzir tão bem o que todos os fãs de Senna sentem hoje.

Obrigado, Campeão!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Lição de Vida: Rocky Balboa

Muitos amigos já me disseram que a franquia "Rocky", filmes estrelados pelo ator Sylvester Stallone era de mau gosto, produção porca e sem história. O retorno do ator ao seu famoso papel, talvez mais famoso até que o boina verde John Rambo, gerou críticas, por se tratar de um boxeador já em seus 60 anos de idade. Para mim, o filme é bem mais que isso, como para todos que conseguem enxergar além do óbvio, que conseguem abstrair uma máxima e um pano de fundo e entender que tipo de mensagem vem criptografada sob a máscara do longa. Segue a tradução do discurso de Rocky Balboa a seu filho. Leia, veja e reflita. Em seguida, me diga se realmente é um filme vazio voltado para pancadarias:


"The world ain't all sunshine and rainbows. It's a very mean and nasty place and I don't care how tough you are, it will beat you to your knees and keep you there permanently if you let it. You, me or nobody is gonna hit as hard as life. But ain't about how hard you can hit. It's about how hard you can get hit and keep moving forward, how much you can take and keep moving forward. That's how winning is done. Now, if you know what you worth, go out and get what you worth. But you gotta be willing to take the hits. Not pointing fingers saying you ain't what you wanna because of him, her or nobody. Cowards do that and that ain't you! You're better than that!"

O mundo não é feito de luz do sol e arco-íris. É um lugar muito mau e sórdido e não me importa quão forte você é, ele vai te bater até te jogar no chão e mantê-lo lá permanentemente se você permitir. Eu, você ou qualquer um jamais baterá tão forte quanto a vida. Mas não é sobre o quão forte você consegue bater. É sobre quão forte você consegue ser atingido e continuar seguindo em frente, quanto você aguenta levar e seguir em frente. É assim que se consegue vencer. Agora, se você sabe o quanto você merece, vá lá e consiga o que merece. Mas você terá que estar disposto a aguentar os trancos. E não sair apontando dedos dizendo que você não é o que quer ser por causa dele, dela ou de qualquer um. Covardes fazem isso e este não é você! Você é melhor que isso!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Doutor e o “Dotô”

Quem nunca chamou um médico ou advogado de doutor? Quem nunca marginalizou as demais profissões que tem tanta ou até mais importância que as anteriores? E quem nunca achou que, só por usar branco, era médico?

Antigamente, o nível superior se restringia quase que apenas à Medicina, o Direito e a Engenharia. Entre os três, os médicos com suas impecáveis roupas brancas e os advogados com seus irrepreensíveis ternos se destacavam, e os engenheiros nem tanto. Hoje, temos faculdades para todos os cantos, e para finalidades que nem sabíamos existir. Ou mesmo que achemos necessárias. Mas será que são mesmo desnecessárias?

Quem faz parte das classes mais novas, quase sempre se sente marginalizado e desvalorizado justamente por conta da ignorância que carregamos conosco. Se um curso de Medicina dura seis anos, de Direito, cinco anos, e um de Artes Cênicas, cinco anos, deve mesmo ser diferenciado? Hoje, na área de saúde, temos além da medicina, cursos de psicologia, fisioterapia, nutrição, enfermagem, educação física e outros. Mas o reconhecimento técnico-científico e mais ainda financeiro, não se compara.

A discrepância é tanta, que um médico recém formado chega a ganhar três vezes mais que qualquer outro profissional da saúde, mesmo este possuindo mais tempo de estudo, mais títulos e mais conhecimento. Ignora-se que Doutor é aquele que tem o título por ter demonstrado conhecimento através de um doutorado, que chega a ser duas ou três vezes mais longo que um mestrado.

Em experiência própria, já cheguei a discutir com médicos de vasta experiência sobre o assunto e, como nenhum deles apresenta a titulação necessária, me recuso a chamá-los de doutor, a não ser em frente aos pacientes. Mas nesse caso, exijo o mesmo tratamento por parte deles. Ainda mais no interior do que nas capitais, o título de doutor ostentado por esses profissionais satisfaz seus egos, e muitas vezes não são justificados nas ações.

Uma questão dessas pode parecer irrelevante para a maioria da população, mas é visível em locais onde é constante a interdisciplinaridade, os desgastes e a queda do nível de qualidade por essa forma diferenciada de tratamento. Aí chegamos ao que interessa a todos: a qualidade do atendimento. Imagine você ou uma pessoa próxima a ser atendido num hospital. Todos fazem o que podem e o que não podem para dar o melhor atendimento possível. Ao menos, de inicio. Com o tempo e o desgaste, o trabalho passa a ser muito mais a sobrevivência e a obrigação de um salário do que o prazer em ajudar pessoas... E aí é que mora o perigo.

Por isso, da próxima vez que vir alguém de branco, não se esqueça que pode ser um açougueiro, e quando vir alguém de terno, pode ser um segurança. Não desmerecendo nenhuma das classes, mas elas não são endeusadas como os médicos e advogados. Pense se deve tratá-los como Doutor ou como “Dotô”.